O reverso da moeda

O século XVI representou algo de espantoso na história universal. Às suas vésperas, a tomada de Constantinopla pelos otomanos em 1453 marcou definitivamente o fim do Império Romano do Oriente e, com ela, a época de trevas que a Idade Média fez sucumbir o mundo civilizado. Era chegada a vez dos grandes descobrimentos. Em 1492, Colombo chegava às Bahamas e Cabral descobria o Brasil em 1500. Acompanhavam esses descobrimentos substanciais mudanças de hábitos e costumes. Lutero (1520) e Calvino (1535) questionaram os dogmas da Igreja Católica, numa atitude que outrora lhes custaria a vida, queimada pela terrível Inquisição medieval. Florença, na Itália, tornava-se o centro de um fértil movimento cultural iniciado no século XV que seria, mais tarde, chamado de Renascimento. Enfim, deve ter sido fantástico viver num período tão fabuloso.

Realmente, seria fantástico se, infelizmente, não fosse possível contar essa história de outra forma. Seria fantástico se o apogeu alcançado pela civilização europeia não tivesse sido obtido graças à economia colonial que se seguiu ao Século XVI. Seria fantástico se a história que nos é ensinada nas escolas não ocultasse, no meio de seu aparente esplendor, a feia tragédia do colonialismo. Tragédia, antes de tudo, consequente à desumana exploração das riquezas coloniais por estruturas econômicas devastadoras, como monocultura e latifúndio, que permitiram a obtenção, por preços vis, das matérias primas indispensáveis ao próspero industrialismo europeu. A própria história brasileira nos mostra os sucessivos ciclos econômicos açúcar, borracha e ouro, voltados exclusivamente ao abastecimento dos “brilhantes renascentistas”. Qualquer livro escolar de história traz a frase “…o ouro e a prata trazidos da América pelos espanhóis e portugueses agitaram a economia europeia do Século XVI”. Percebe-se bem na redação o verbo “trazidos” e não “levados”. Uma redação que induz o leitor, apenas uma criança, a imaginar as maravilhas dos reinos encantados, mas jamais o sangue dos milhares de astecas e incas exterminados juntamente com sua fabulosa civilização.

No Brasil, a ambição desenfreada dos colonizadores causou uma dilapidação tão intensa de nossos recursos naturais que até nosso nome foi levado, uma vez que raros são hoje em dia os exemplares de pau-brasil. Na África, milhares de pessoas foram raptadas de seus lares e submetidas a um regime de trabalho que dispensa adjetivos, para que os “civilizados” pudessem adoçar o seu café e exibir as ricas peças de ouro e prata nos minuetos da corte. A bela Inglaterra Vitoriana da final do Século XIX significou para milhares de cidadãos da África e da Ásia, como na Índia, uma época de neocolonialismo do qual apenas nesse século conseguiram se libertar. Com o fim da Primeira Guerra Mundial e a derrota dos turcos, aliados dos alemães, o mundo muçulmano foi simplesmente loteado pelos franceses e ingleses. As novas cruzadas se faziam impiedosas.

Em cada castelo, em cada igreja, em cada museu europeu choram as almas de milhares de inocentes da mesma forma que, atualmente, por trás da organização e exemplo de civilidade de países como a Suíça, escondem-se as fortunas mais sujas dos piores traficantes, ditadores, sonegadores e outros marginais de todo o mundo.

Após a Segunda Guerra Mundial, o eixo da dominação bipolarizou-se entre EUA e URSS. O golpe militar de 1964, que encerrou no Brasil uma promissora época de convivência democrática, foi prova cabal desta bipolarização. Não faltam evidências do envolvimento da CIA americana, sobretudo na mais hedionda das práticas ditatoriais: a tortura. Instrutores americanos eram enviados para treinar nossos policiais e paramilitares, no fundo irmãos brasileiros, nos modernos métodos de tortura utilizando como cobaias, nas “aulas práticas”, pobres infelizes que nada tinham a confessar.

Se por um lado os americanos foram responsáveis pelo sofrimento de milhares de pessoas, os soviéticos também não deixaram por menos. Não fossem os americanos, certamente teriam sido os soviéticos os nossos algozes. A queda de Fulgência Batista em 1959, com a ascensão de Fidel Castro ao poder em Cuba, guarda estreita dependência com a colaboração soviética. O massacre dos manifestantes de Praga em 1968 na Tchecoslováquia não deixou dúvidas quanto às intenções dos revolucionários de Moscou.

Fruto deste comportamento dito humano, onde são abolidas todas formas de respeito ao indivíduo e o interesse de certos grupos se sobrepõe ao da coletividade, têm-se convivido de maneira impotente diante do massacre da fome e da miséria a que está submetida a maior parte da população do planeta. Algumas fontes estimam que 20 milhões de pessoas morrem a cada ano de causas relacionadas com a fome, das quais 14 milhões são crianças. Isto significa que cerca de 40 mil crianças morrem a cada dia. A perda de vidas humanas em função da fome é maior do que se uma bomba atômica – como a que destruiu Hiroshima – fosse jogada era uma área densamente habitada a cada 3 dias.

E assim se faz a história, que pode ser um conto de fadas, dependendo de quem a conta. Mas também pode ser um triste cenário de tragédia e sofrimento, feito exclusivamente às custas da ambição humana e de sua consequente dominação avassaladora. Cabe a nós, dominados, o esforço da resistência. Um esforço que passa necessariamente pela avaliação de nossa própria conduta e de nossos próprios valores. Um esforço que passa pelo abandono da vaidade e do apego material para se abraçar definitivamente a causa do dominado. Aquela causa que não traz nenhum tipo de promoção pessoal ou reconhecimento. Aquela que se luta por acreditar na sua verdade. Aquela em que o exemplo de vida de cada um é o instrumento de sua revolução. Mas uma revolução feita rejeitando-se qualquer forma de violência. Simplesmente acreditando-se mais no valor solitário de um Gandhi do que num exército de Che Guevaras.

6 respostas para “O reverso da moeda”

  1. Reapmente, continua atual… infelizmente. E creio que não mudará. Parece ser a triste ess n ia do ser humano.

  2. Absolutamente atua! A história se repete como a mesma farsa , só que através da manipulação dos fatos pela mídia moderna. Abraço triunvirótico!

  3. Excetuando essa frase abaixo, gostei do artigo e continua válido. Os militares apenas evitaram outro golpe que levaria o Brasil a ser uma Cuba, como se comprovou com o que foi feito na Venezuela.
    O golpe militar de 1964, que encerrou no Brasil uma promissora época de convivência democrática

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