O desafio da formação de guerreiros

Elizabeth I foi rainha da Inglaterra de 1558 a 1603, a última da dinastia Tudor. Ficou conhecida como a “Rainha Virgem” pelo fato de nunca ter se casado. No ano de 1584, a Rainha deu permissão a Sir Walter Raleigh para que empreendesse viagem ao Novo Mundo e lá se estabelecesse em nome da Inglaterra. Começava a ocupação da América do Norte pela Inglaterra e nascia o que viria a se tornar os Estados Unidos. Em homenagem à Rainha Virgem, a região explorada recebeu o nome de Virgínia.

A ocupação do território americano se caracterizou por graves embates com as populações indígenas que lá existiam. Estima-se que mais de 20 milhões de índios tenham sido mortos ou dizimados por doenças exóticas, ao longo dos três primeiros séculos de ocupação. Todavia, num dos raros momentos de aproximação amistosa com os índios, teriam os ingleses convidados os índios a enviar seus jovens a estudar em suas escolas, para que pudessem se tornar indivíduos “civilizados”. Tempos depois, insatisfeitos com os resultados desse processo de “civilização” teriam escrito os índios aos europeus:

“Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados em vossas escolas e aprenderam toda a vossa ciência. Mas quando eles voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros. Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos deles homens.”

Essa história ficou muito conhecida, pois Benjamin Franklin (1706-1790) costumava repeti-la em seus discursos. Também se tornou comum citar o episódio em diversos textos sobre educação, há centenas de links na Internet que remetem a textos com essa passagem.

Sem querer, assim, ser repetitivo, podemos trazer essa mensagem para o contexto de nossas aulas. De que adianta fazer nossos alunos decorar fórmulas complexas que nunca vão usar? De que adianta exigir-lhes que memorizem datas e nomes de histórias que não lhe trazem nenhum significado? Por que continuamos a ensinar coisas que nós mesmos, quando estudantes, fomos incapazes de aprender?

Essa não é uma discussão simples e sempre há grande resistência quando se propõe a fazer aquilo que John Comenius já nos ensinava no Século XVII: “precisamos ensinar menos para que os alunos possam aprender mais”.

Não falo, obviamente, de banalizar a educação e suprimir conteúdos essenciais para a formação profissional. O problema, todavia, é que todo professor considera a sua disciplina como a mais importante para o curso em que atua. Afinal, somos apaixonados por aquilo que ensinamos. O que falo, assim, é para refletirmos sobre os conteúdos sob o prisma do ensino sobre competências. O foco sempre deve ser o desenvolvimento da competência, nunca o conteúdo em si. Todo conteúdo que não tiver clara conexão com o desenvolvimento das competências elencadas para a disciplina podem e devem ser suprimidos.

Num mundo em que a quantidade de conhecimento se multiplica todos os dias, é cada vez mais difícil fazer com que os alunos saibam tudo. O que queremos, na realidade, é que os alunos desenvolvam a capacidade de buscar e mobilizar conhecimentos para a realização de um objetivo claro e definido. Só assim, teremos guerreiros e não robôs que repetem textos memorizados.

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Dicas:

Um interessante filme sobre a história da Rainha Virgem é “Elizabeth”, com Cate Blanchet. Veja a sinopse.

 

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