Luises e Ramseses

Um dos maiores desafios de qualquer professor é prender a atenção dos alunos e mantê-los engajados e conectados na aula. Nessa hora, conta muito a criatividade e a capacidade de olhar o mesmo assunto sob diferentes perspectivas. Não dá mais para ficar ano após ano repetindo a mesma aula, com a mesma abordagem. Assim, explorar um determinado assunto sob novas perspectivas é uma necessidade.

Exemplo disso é olhar para a Revolução Francesa sob a perspectiva de uma praça e de um obelisco. Afinal, o que um monumento egípcio pode ter a ver com essa história? O que os faraós “Ramseses” tem a ver com os reis “Luises” da França?

Bem, vamos começar com os mais antigos. Durante cerca de 200 anos, o Egito foi regido por uma série de faraós com o nome de “Ramses”. Ao todo foram 11 “Ramseses”, de 1292 a 1077 aC. Dentre eles, Ramses II foi um dos mais famosos, tendo sido faraó do Egito por 66 anos, de 1279 a 1213 aC. Muito do que se sabe sobre ele está escrito nos hieróglifos das paredes do Templo de Luxor, cuja construção foi por ele finalizada durante seu reinado. Guardam sua entrada, duas magistrais estátuas. Ao lado da estátua da esquerda, está um obelisco* de 25 metros de altura e mais de 250 toneladas. Ao lado da estátua da direita, porém, hoje só resta o espaço que antes era ocupado por outro obelisco.

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 Templo de Luxor, mostrando o obelisco que falta (à direita)

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Detalhe da entrada do Templo de Luxor, o obelisco está logo a direita dessa esfinge.

Já os “Luises”** foram 20. Foram uma série de monarcas franceses que reinaram por mais de mil anos, de 814 a 1848. Destes, Luis XV foi monarca por 59 anos, de 1715 a 1774. Em 1763, para comemorar o seu restabelecimento de uma doença, o Rei decidiu construir uma estátua em sua própria homenagem, a qual foi colocada em uma praça em frente ao Jardim das Tulherias, em Paris, no início da Avenida Champs’Élysées.

Em 1792, porém, no seio da Revolução Francesa, a estátua foi derrubada, já que era símbolo da monarquia, e o local passou a se chamar “Praça da Revolução”. A praça foi equipada com uma guilhotina, onde foram decapitados mais de mil pessoas, dentre elas, o Rei Luís XVI em 1793, neto de Luís XV (ou seja, o neto foi guilhotinado no local em que seu avô tinha uma estátua). Nessa praça foram também guilhotinados o químico Lavoisier e os líderes revolucionários Danton e Robespierre, todos em 1794.

Anos depois, com a queda de Napoleão, a monarquia francesa foi restaurada e em 1815 assumiu o reinado Luís XVIII, irmão mais novo de Luís XVI (o Luís XVII, filho de Luís XVI, morreu aos 10 anos de idade, no cárcere da Revolução, em 1795). Decidido a resgatar a memória do irmão martirizado, o Rei rebatizou o local como “Praça Luís XVI”, onde planejava erguer uma estátua em sua homenagem. Mas a estátua não foi construída e, em 1831, o Rei Luís Filipe I (o último dos “Luíses” e o último rei da França), decidiu despolitizar o lugar. Nem revolucionários, nem monarquistas: para sinalizar o “acordo” entre passado e futuro, renomeia o local como “Praça da Concórdia”.

Em comemoração ao fato, no mesmo ano, o vice-rei do Egito, Mohammed Ali, decide dar de presente à França um dos obeliscos do Templo de Luxor, exatamente aquele que hoje está faltando no local. Em retribuição, o Rei Luís Filipe I doou para o Egito um relógio, que foi instalado na torre da mesquita Mohammed Ali (dizem que lá chegou quebrado).

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 Interior da Mesquita Mohamed Ali. O relógio francês está ao fundo, na direita.

O gigantesco obelisco levou 2 anos para chegar em seu local definitivo e mais 3 para ser instalado. Assim, em 1836, na presença de uma multidão de 200 mil pessoas, o obelisco foi colocado de pé totalmente ileso na Praça da Concórdia, uma proeza para a engenharia da época, onde se encontra exposto até hoje.

Assim, tendo como símbolo o obelisco trazido do Egito, a Praça da Concórdia está lá hoje, para contar a qualquer um, a sua perspectiva sobre os fatos ocorridos na Revolução Francesa.

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Praça da Concórdia (Place de la Concorde), em Paris, nos dias atuais

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* Há um interessante site que reúne informações sobre os obeliscos egípcios:
http://okamoto-shoji.jp/obelisk.htm

 

** O primeiro foi Luís I, o Piedoso (778–840), filho de Carlos Magno (742-814) do Império Carolíngio. Após ele, iniciou-se uma longa série. Destacam-se:

Luís XIV (1638-1715), rei de 1643 a 1715, durante 72 anos.
Luís XV (1710–1774), rei de 1715 a 1774, citado nesse post.
Luís XVI (1754-1793), rei de 1774 a 1791, guilhotinado durante a Revolução Francesa.
Luís XVII (1785-1795), não foi rei, morreu no cárcere da Revolução Francesa.
Luís XVIII (1755-1824), rei de 1814 a 1824, rei redepois da Restauração
Luís XIX (1775-1844), dizem ter sido rei da França por 20 minutos, teoricamente o último “Luís”.

Os dois últimos reis da França foram:
Carlos X (1757-1836), rei da França de 1824 a 1830
Luís Filipe I (1773-1850), rei da França de 1830 a 1848.

 

3 respostas para “Luises e Ramseses”

    1. Pois é, Alexandre. É um gostoso passatempo. E pensar que temos toda essa história a disposição de todos, não tem fim!! Divertido, né?

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