Do monge ao aluno

Parece que foi assim: um monge beneditino do Séc. XI, chamado Guido d’Arezzo, gostava de uma canção em homenagem a São João Batista, chamada “Ut queant laxis“. E, de cada verso em latim dessa canção, extraiu as primeiras letras para dar nome às notas musicais do sistema que estava criando. Surgiram então UT, RE, MI, FA, SOL, LA e SI (UT depois virou DO). Essas notas, passou a registrá-las em cinco linhas horizontais, ou pautas, e com isso nascia o moderno sistema de notação musical, as chamadas partituras.
Mas muita gente pode pensar: se os músicos de uma orquestra são tão profissionais, porque eles precisam de partituras para tocar? Porque não tocam de cor?

Acontece que as orquestras se caracterizam por seu repertório variado. Mudam com muita frequência o que vão tocar. Assim, conseguem agradar seu público e não ficam enfadonhas por tocar sempre as mesmas composições. E, por conta disso, é impossível aos músicos decorar todas as sequências harmônicas de todas as peças que precisam executar. Podem até memorizar uma ou outra mais famosa, mas tudo é impossível. Dizem ter existido na Europa uma orquestra que se caracterizava por tocar sem partitura. Mas tocava exclusivamente as nove sinfonias de Beethoven. Ainda que cada uma delas tenha vários movimentos, são apenas nove composições. Mas, com o tempo, o público se cansou de sempre ouvir a mesma coisa e a orquestra acabou fechando.

Mas o que importa, na verdade, não é o que tocar e sim como tocar. É a sensibilidade do músico, a inspiração do artista, a regência do maestro, entre outros, que fazem cada execução única. Convido-os, como teste, a ouvir a Suíte n.1 para violoncelo de Bach executada por Yo-Yo Ma e, depois, por Rostropovich, ambas interpretações soberbas, mas completamente diferentes. Se navegarmos nos links do Youtube, vamos achar interpretações em guitarra, baixo, violão e até em acordeão para a mesma suíte, todas incríveis, cada uma com o toque pessoal do artista.

Não precisamos que nossos alunos decorem a matéria que ensinamos. Precisamos que eles saibam executá-la com maestria. Não precisamos que eles saibam de cor os conteúdos, precisamos que eles saibam mobilizá-los para produzir entregas e realizações. É completamente diferente ensinar por conteúdo do que ensinar por competência. E é igualmente diferente avaliar o aprendizado por conteúdo do que avaliar por competência.

Se conseguimos ver beleza na execução de músicos que lêem partituras, porque não podemos valorizar os méritos dos alunos que, mais do que memorizar, são capazes de colocar em prática aquilo que aprenderam?

2 respostas para “Do monge ao aluno”

  1. Texto excelente, parabéns, porém não sei se sinto alegria ao ver que existem pessoas como você, ou profunda tristeza ao ver o “muinto” do comentário anterior.
    É uma pena que a realidade docente brasileira seja lamentável.

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