As origens dos países árabes atuais

Primórdios

A história dos atuais países árabes é mais recente do que se imagina. Apesar da região ser habitada desde milênios antes de Cristo, somente depois da 1a. Guerra Mundial é que os países árabes começaram a ganhar os contornos que possuem hoje, bem como sua soberania como nação.

Os primórdios, sim, são muito antigos. O livro do Gênesis, do Antigo Testamento, conta que Noé (da arca) teve vários filhos, dentre eles “Sem”. Os descendentes de “Sem” vieram as ser chamados de “semitas”, sendo Abraão um deles, o qual supostamente teria vivido entre 2000 a 1500 aC, em Ur, na Caldeia, região hoje localizada no sul do Iraque, às margens do Rio Eufrates. Para os judeus e cristãos, Abraão é o seu patriarca, de quem descende todo seu povo através de seu filho com Sara, Isaac. Mas para os árabes, Abraão também é seu patriarca, através de seu filho Ismael, nascido de sua segunda esposa, Agar.

Durante séculos, viveram os árabes como tribos nômades na região desértica da Península Arábica (os beduínos), até que no Século VI iniciou-se um processo de unificação. Inspirados por Maomé (570-632), surge a religião muçulmana. Para os muçulmanos, Maomé foi o último profeta de uma linhagem que contém Abraão, Ismael, Isaac, Jacó, Davi e Jesus. A expansão árabe no Século VII foi tão intensa, que rapidamente ocuparam todo o Oriente Médio até a Pérsia (atual Irã), o norte da África e parte de Portugal e Espanha. Alguns historiadores afirmam que foi a expansão árabe que impediu a reorganização do Império Romano, a partir do Bizantinos.

O apogeu dos árabes foi no Século XII, quando Saladino derrotou os cruzados, unificando o Egito, a Síria e o Iraque, tendo Damasco como sua capital. Em sua fase áurea, enquanto a Europa chafurnava nas trevas de sua Idade Média, os árabes atingiram avançados estágios na matemática, na astronomia e na medicina. Chegaram, inclusive, a traduzir as obras dos filósofos gregos para o árabe e foi através dessas traduções que os europeus redescobriram os filósofos da Antiguidade, já que os originais estavam inacessíveis, trancafiados pela Igreja Medieval (ver outro post sobre isso nesse blog).

A partir do Século XIII, porém, o Império Árabe começou a declinar e suas fronteiras começaram a recuar. Foram expulsos da Europa em 1492, com a queda de Granada, e em sua outra extremidade, passaram a ser atacados pelos turcos otomanos. No Século XVI, o Império Árabe já estava totalmente desmontado e seus território africanos e asiáticos passaram a ser províncias otomanas.

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O início da independência

Somente 500 anos depois da ocupação otomana é que os árabes conseguiram iniciar a recuperação de sua autonomia. Quando eclodiu a 1a. Guerra Mundial, em 1914, os otomanos se tornaram aliados dos alemães e, portanto, inimigos dos britânicos e franceses. Esses viram então nos árabes uma boa oportunidade de enfraquecer o inimigo por dentro. Assim, britânicos passaram a dar armas e apoio logístico aos árabes para que se revoltassem contra os turcos. Como fruto dessa estratégia, ocorreu a chamada “Revolta Árabe” (1916-1918), a qual foi o tema do fabuloso filme “Lawrence da Arábia“, de 1962, dirigido por David Lean e estrelado por Peter O’Toole, Omar Shariff, Antony Quinn e Alec Guiness.

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Todavia, enquanto os árabes lutavam por sua independência contra os turcos, britânicos e franceses já discutiam como seria feita a partilha dos territórios árabes do Império Otomano, caso vencessem a guerra. Desta forma, em 16/05/1916, assinaram um acordo secreto chamado Sykes-Picot. A França ficaria com Síria e Líbano e a Inglaterra com o Egito, a Jordânia, a Palestina e o Iraque. Ou seja, enquanto os ingleses e franceses abertamente apoiavam os árabes em sua luta pela liberdade, secretamente decidiam que suas terras seriam colônias, não países independentes. Quando a guerra acabou, o Emir Faiçal (1885-1933) foi proclamado com rei da “Grande Síria”, mas seu reinado durou apenas 2 anos: em 1920 a França invadiu militarmente a região, forçando a retirada de Faiçal. Após sua saída, a França dividiu a região nos estados atuais da Síria e do Líbano. De quebra, a França ficou também com os países árabes da região do Maghreb (Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia), que nessa época já não estavam mais sob domínio otomano.

Cronologia

Então, na região do Oriente Médio, os principais países árabes surgiram da seguinte forma:

IRAQUE: 1920 (reinado e república)

O Iraque corresponde à antiga Mesopotâmia, o nome “Al-Iraq” significa, em árabe, “a terra entre dois rios”, ou seja, é o mesmo nome de sempre, mas passou a ser designado dessa forma quando a região foi invadida pelos árabes no Século VII. Em 1920, quando Faiçal foi expulso da Síria pelos franceses, os ingleses o acolherarm e lhe nomearam como Rei do Iraque (que não existia até então), sem que nenhum iraquiano sequer o conhecesse. Os descendentes de Faiçal governaram o Iraque até 1958, quando seu neto foi assassinado em um golpe de estado, que criou a atual República do Iraque. Após o golpe, seguiram-se anos de sucessivos novos golpes e crises internas, até que em 1979, Sadam Hussein chegou ao poder, ficando até 2003, quando foi executado pelos americanos após a invasão do território iraquiano, que se encontra ocupado até hoje.

ARÁBIA SAUDITA: 1932 (reinado)

Em 1932, Ibn Saud conseguiu reunir as tribos da região e deu origem a um reino que levou, modestamente, seu sobrenome: a “Arábia Saudita”. Desde sua morte, em 1964, vem sendo sucedido por seus descendentes. Dentre eles está o Rei Faiçal, que governou de 1964 a 1975, mas nada tem em comum com o Emir Faiçal, citado anteriormente. O atual monarca da Arábia Saudita, o Rei Abdallah, está no poder desde 2005 e é a quinta geração depois de Ibn Saud.

LÍBANO: 1943 (república)

O Líbano conquistou sua independência da França em 1943 e teve um período de grande prosperidade, sendo chamado de a “Suíça do Oriente”. Mas as tensões entre cristãos e muçulmanos mergulharam o país numa guerra civil em 1975 que durou 15 anos e arrasou o país. O país teve seu território invadido pela Síria, por Israel, pela França e pelos Estados Unidos. O atual presidente do Líbano é Michel Suleiman, no poder desde 2008. É o terceiro presidente desde o fim da guerra civil. De certa forma, o Líbano é hoje o país árabe mais próximo de uma democracia.

SÍRIA: 1946 (república)

A Síria se tornou independente da França em 1946. Hafez al-Assad foi seu presidente de 1971 até 2000, quando morreu e assumiu seu filho, Bashar al-Assad, até hoje no poder. A Revolta Síria eclodiu em 2011 e até hoje se encontra ativa, com mais de 100 mil mortes acumuladas desde seu início.

JORDÂNIA: 1946 (reinado)

Após o fim da 1a. Guerra Mundial, os britânicos criaram o “Emirado da Transjordânia” e o mantiveram sob seu domínio até 1946, quando o país se tornou independente. O atual rei, Abdullah II, está no poder desde 1999, quando morreu sei pai, o rei Hussein, que tinha parentesco com o Rei Faiçal do Iraque.

EGITO: 1953 (república)

O Egito teve uma situação um pouco diferente. Apesar de formalmente também pertencer ao Império Otomano, o país estava sob controle britânico desde 1882. A república moderna do Egito só foi proclamada em 1953 e em 1956 assumiu a presidência Gamal Abdel Nasser, que ficou no cargo até 1970. Foi sucedido por Anwar Al Sadat, que permaneceu na presidência até 1981, quando foi assassinado. Seu sucessor foi Hosni Mubarak, que ficou 20 anos no poder, quando foi deposto em 2011 por uma revolta popular. O presidente eleito, Mohamed Morsi, ficou apenas um ano no poder, sendo deposto em um golpe de estado. Atualmente, o Egito tem um governo interino, liderado por Adly Mansour desde julho de 2013.

Países não árabes

O Irã e a Turquia, dentre outros, apesar de maioria muçulmana, não são países árabes. São habitados por povos de origem não semita e falam outros idiomas. Nos países árabes, todos falam a mesma língua (árabe), mas na Turquia fala-se turco e no Irã fala-se persa. De comum, assim, apenas a religião.

A Turquia, com o fim oficial do Império Otomano em 1922, foi proclamada como república em 1923. Seu primeiro presidente foi Mustafa Kemal Ataturk, que governou até sua morte em 1938. É considerado como um herói nacional e implantou importantes reformas modernizadoras no país, inclusive a mudança do alfabeto para caracteres latinos em 1928. O atual presidente, Abdullah Gul está no poder desde 2007 e é o décimo presidente desde Ataturk. A Turquia é considerada com o país muçulmano mais avançado em termos de democracia e direitos civis, ainda que abaixo dos padrões de países mais desenvolvidos.

Já o Irã, a antiga Pérsia, conseguiu sempre manter sua soberania e não foi incorporado ao Império Otomano. Porém, após o fim da 1a. Guerra Mundial, o país foi pressionado a se modernizar e após uma revolução constitucional, subiu ao poder em 1925 o Xá Mohammad Reza Pahlavi. Em 1935, o Xá solicitou formalmente que a comunidade internacional chamasse seu país de Irã, não de Pérsia. O termo “Pérsia” deriva do Latim e era como os outros países se referiam ao país, mas internamente, em sua própria língua, o povo sempre usou o termo “Iran”, derivado de “Aryanam”, termo sassânida que significa “terra dos arianos”. Em 1941, durante a 2a. Guerra Mundial, o Irã foi invadido pelo Reino Unido e pela Rússia, para se apoderarem dos ricos campos petrolíferos do País. Como o Xá resistia a essa apropriação, foi forçado a renunciar e passar o poder ao seu filho, também chamado Reza Pahlavi, mais dócil aos invasores. Reza Pahlavi “pai” morreu 3 anos depois, em seu exílio na África do Sul.

Reza Pahlavi “filho”, porém, continuou como Xá, mas com o fim da 2a. Guerra, a pressão interna para a retomada dos campos petrolíferos aumentou. Em 1953, o então primeiro ministro Mohammed Mosaddeq decretou a nacionalização das empresas petrolíferas, desencadenado uma crise com o Xá, que culminou com a deposição de Mosaddeq, com o apoio da CIA. A reação popular, todavia, foi tão intensa que o Xá teve que abandonar o país e se refugiar em Roma. Mas Mosaddeq acabou sendo deposto em um golpe e passou o resto de sua vida em prisão domiciliar, até sua morte em 1967. Após o golpe, Pahalavi voltou ao país e passou gradativamente a concentrar poderes, afastando-se inclusive dos líderes religiosos muçulmanos. Aliado aos seus hábitos ocidentais, esse afastamento acabou por inspirar sentimentos fundamentalistas que culminaram com a Revolução Islâmica de 1979, liderada pelo Aiatolá Khomeini, que depôs o Xá e instalou uma república islâmica que persiste até hoje. Pahlavi morreu um ano depois, em seu exílio no Egito.

Quando Khomeini morreu em 1989, aos 87 anos, assumiu seu posto como líder supremo o aitolá Ali Khamenei, que ocupava a presidência do país desde 1981. Khamenei continua até hoje no poder (está com 74 anos) e após sua saída da presidência, outros presidentes do país foram se alternando. Desde 2013 ocupa a presidência do Irã Hassan Rohani, considerado mais moderado com relação ao Ocidente do que o seu predecessor, Mahmoud Ahmadinejad, que governou de 2005 a 2013.

Conclusão

No final do Século XIX, ainda sob dominação otomana, muitos árabes decidiram tentar a vida em outros países e milhares vieram para o Brasil. Naquela época, uma das maiores províncias árabes do Império Otomano era a chamada “Grande Síria”, que compreendia os territórios dos atuais Líbano, Síria, Jordânia, Israel e Iraque, que não existiam enquanto países naquela época. Ao chegar no Brasil, como eram provenientes de territórios do Império Turco Otomano, esses imigrantes eram chamados de “turcos” pelos brasileiros, ainda que fossem “árabes” e os turcos, na realidade, fossem os seus algozes.

Inúmeros descendentes dessa colonização se tornaram personalidades muito conhecidas no Brasil, em várias áreas, tal como Adibe Jatene, Alex Atala, Amyr Klink, Antônio Houaiss, Geraldo Alkmin, Henry Maksoud, Joseph Safra, Juliana Paes, Marilena Chauí, Michel Temer, Jorge Murad, Paulo Maluf, Fernando Haddad, Pedrinho Mattar, Pedro Simon, Pérsio Arida, Romeu Tuma, Paulo Skaf, Sabrina Sato, Roberto Frejat, Tasso Jereissat e inúmeros outros.

Trata-se, assim, de um povo como qualquer outro, com suas capacidades e defeitos. Ocorre que a conquista da democracia pelas nações é um processo lento. Inúmeros países enfrentaram guerras e conflitos em sua busca pela estabilidade democrática. Os Estados Unidos, por exemplo, tiveram sua independência em 1776, mas seus contornos atuais somente se desenharam após a violenta guerra civil por que passou entre 1861 e 1865. O Brasil, por sua vez, passou por 67 anos de monarquia e, na república, teve que enfrentar dois períodos ditatoriais de 1930 a 1945 (Vargas) e de 1964 a 1985 (militares). Vários outros países têm histórias semelhantes.

Os países árabes do Oriente Médio estão apenas engatinhando em sua busca pela democracia. Apesar de seu longo passado histórico, são todos muitos novos, a maioria começou a se firmar somente depois da 2a. Guerra Mundial e ainda têm menos de 70 anos em sua jornada. O Brasil tem 191 e os EUA têm 237 anos. Isso faz muita diferença.

 

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25 respostas para “As origens dos países árabes atuais”

  1. muito bom…por isso a naçao arabe eh inimiga de israel e farao tudo para destrui-lo…porem sem sucesso ..porque Deus proteje a Israel.

    1. As opiniões sobre toda as QUESTÕES NO ORIENTE MEDIA, é uma variavel sem fim. Podemos dizer que tudo está relacionado com os movimentos do passado, onde cada peça deste quebra cabeça, produziram seus feitos e suas causas. Ha um jogo de regras para cada ação e reação, pois os desentendes de cada peça (país) está negociando seus feitos. E ISRAEL e parte desta peça. Haverá cobrança para todos os envolvidos nesta dança de poder. Então DEUS não ira impedir o efeito produzidos pelas peças, ora localizada em ISRAEL… ENTÃO, tira Deus desses feitos, somos nos os responsáveis por tudo que acontece aqui neste MUNDO DA ILUSÃO….

    1. Não vieram. Ao menos, não como a maioria das pessoas pensa. A grande leva de imigração dessa região no final do século XIX e início do século XX foi de árabes, não de turcos. Esses imigrantes árabes, em sua maioria cristãos, vinham fugindo exatamente dos turcos, por questões religiosas e econômicas. Acontece que nessa época, toda a região árabe encontrava-se sob domínio turco. Então, ao desembarcar no Brasil, os árabes eram equivocadamente chamados de turcos, equívoco que persiste até hoje. Sob a perspectiva dos árabes, não havia nada pior do que ser confundido com o seu opressor.

  2. Na verdade o norte da Africa nem é arabe, são povos que ja existiam e simplesmente foram dominados pelos arabes e imposto a lingua a ele.
    Mas não são de arabes como muitos pensam.

  3. a salvação vem dos judeus, o Senhor jesus veio da descendência de Davi mas foi gerado pelo Deus vivo. Maranata….

  4. Isso sem falar, que essa area do oriente medio e partes da Asia eram dominados por povos de cor (negros). Arabes, egipcios, babilônios, caldeus, Israelitas eram de procedencia negra. A media controlada oculta essas informações. Dentre estes destaco os israelitas descedentes de Abraão que na verdade eram negros. Parabéns pelo post.

  5. Apaz do Senhor amados. Estou grato pelo esclarecimento acima mencionado. Portanto a descedencia esmaelita que sao na verdade os arabes estao onde estao pela palavra prifetica do Deus vivo dada a braao, mas ja mais serao victoriosos contra os israelita. Tudo atraves de jerusalem onde esta a lampada de david. Obrigado

  6. Parabéns pelo artigo, apesar de sucinto ele é bastante didático e esclarecedor.
    Apenas um comentário a respeito do ser humano, um único povo oriundo da mesma descendência, porém, graças ao ciúme e arrependimento de uma mulher a encorajar o marido a ter filho com outra, preconceitos e ódio separaram o esse mesmo povo e um se acha superior aos demais, com uma absurda ignorância atribuindo isso a Deus…
    Mais uma vez parabéns, quem não conhece a história, ignora o presente e não entende a realidade desses povos.

  7. Com o final da ultima glaciação os povos do golfo pérsico foram empurrados para a mesopotâmia, onde inventaram a agricultura sedentária. Dai o império persa se implanta na região por milhares de anos, até serem dominados pelos os gregos de Alexandre. Depois os romanos dominam os gregos e os europeus implantam as cruzadas. Quando os turco-otomanos vencem os cruzados constroem um império durante o qual incentivam os europeus a atravessar o Atlântico e “descobrir (e saquear) a América”. Após 6 séculos o império turco desmorona com a I WW. Dai vem a era do petróleo, quando o UK macomunado com os franceses dividem o middle-east a seu gosto. Esta fase da dominação européia traz as consequências sociais mais danosas para o mundo atual. Com a II WW chegam os americanos que evoluem o processo de dominação com a globalização e a poluição mundial. Agora é a vez das consequências ambientais…

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