E o acaso fez Constantinopla

Constantino tornou-se imperador romano no ano de 306, aos 34 anos de idade. Sete anos depois, em 313, assinou o famoso Edito de Milão, que tirou o Cristianismo da clandestinidade e abriu as portas para que essa se tornasse a religião oficial do Império, com Teodósio, cerca de 70 anos depois. Em 330, Constantino transferiu a capital para a cidade de Bizâncio, localizada às margens do Estreito de Bósforo, que delimita uma das fronteiras da Europa com a Ásia. Bizâncio passou a ser chamada de “Nova Roma”. Quando Constantino morreu, em 337, a cidade passou a ser chamada de “Constantinopla”, em sua homenagem, e seguiu como capital do Império Romano até 395, quando o Império se dividiu e passou a ter duas capitais.

Talvez essa história seja conhecida por muitos. Todavia, poucos sabem por que Constantino escolheu Bizâncio para ser a nova capital imperial.

Apesar de ser imperador romano, Constantino tinha uma pendência muito maior pelo Oriente do que pelo mundo latino propriamente dito. Não nasceu em Roma, nasceu em Naissus (atual Nis, na Sérvia) e passou sua infância pelas terras orientais do Império, sob a influência de sua mãe, Helena, personagem de vital importância histórica, porém pouco conhecida. Convertida ao Cristianismo, muitos acreditam que foi Helena quem influenciou Constantino a assinar o Édito de Milão. Também atribui-se a Helena, em suas viagens a Jerusalém, a descoberta, no dia 3 de maio de 326, em uma cisterna a leste do Monte Calvário, da Vera Cruz na qual em que Cristo teria sido crucificado. Lá mandou construir a Basílica do Santo Sepulcro. Foi Helena, ainda, quem teria descoberto a gruta em que Cristo nasceu em Belém, onde ordenou a construção da Igreja da Natividade.

Ao regressar de uma de suas viagens à Terra Santa, Helena morreu aos 80 anos, em Bizâncio. Isso foi no ano de 330, exatamente no mesmo ano em que Constantino transferiu para lá a capital do império, o que demonstra a influência que sua mãe teve em sua vida e em suas decisões. Canonizada, tornou-se santa e seu nome, entre outros, veio a batizar a Ilha de Santa Helena, em que Napoleão morreu exilado.

Helena, assim, não foi um personagem periférico em sua época. E o destaque é que ela não nasceu na Europa. Helena nasceu na Ásia Menor, em um vilarejo chamado Drepanon, na Bitínia (perto da atual cidade de ?zmit na Turquia), há poucos quilômetros de Bizâncio. Assim, necessariamente para ir à terra natal de sua mãe, Constantino tinha que passar pelo Bósforo, ou seja, por Bizâncio. O caminho por Dardanelos seria muito maior e pelo Cáucaso, impensável.

Não havia como deixar de se impressionar pela beleza do lugar. Portal da Ásia, recortado por penínsulas e reentrâncias, com a paisagem do Mar de Mármara e do Mar Negro contrastando com as suaves colinas do continente de ambos os lados, Bizâncio deixava marcas em qualquer um que por lá se aventurasse.

Foi assim, apaixonado casualmente pelo local de passagem no caminho das terras de sua influente mãe, que Constantino resolveu construir uma cidade que se tornaria a metrópole mais importante do mundo durante praticamente toda a Idade Média. Tomada pelos turcos otomanos, em 1453, quando passou a se chamar Istambul, a cidade até hoje impressiona os visitantes, não somente pela sua beleza natural, mas também por suas monumentais construções como a Basílica de Santa Sofia, a Mesquita Azul e o Palácio Topkapi.

Guardadas as devidas proporções, o episódio ilustra como determinados eventos, aparentemente simples e casuais, podem influenciar com enorme profundidade o destino das pessoas. Muitos dos professores que são mais antigos e mais experientes já passaram pela oportunidade de serem procurados por ex-alunos, vários anos depois que se formaram, e que relatam estarem trabalhando em determinada área ou fazendo determinada pós-graduação, por conta daquilo que lhes foi dito pelo professor quando eram alunos.

Muitas vezes não nos damos conta da importância daquilo que falamos aos alunos e do poder que isso tem em influenciar seus destinos. Então, é com essa consciência que devemos entrar na sala de aula, afinal a influência de nossas mensagens pode ser tanto positiva quanto negativa. Basta lembrar da época em que fomos alunos, não nos lembramos até hoje dos professores que nos influenciaram?

Mesquita Azul, em Istanbul

3 respostas para “E o acaso fez Constantinopla”

  1. foi Constantino quem te contou sobre estar tão apaixonado casualmente pelo local?
    quais os dados históricos?

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