Ligações curiosas: da Etiópia aos rastafáris

A compartimentalização do conhecimento em disciplinas é uma arbitrariedade humana. É claro, fica mais fácil e mais didático ensinar separando o todo em partes menores. Descartes dizia algo como: “se o todo é difícil, comece pelas partes”. Mas, exatamente por ser arbitrário o critério dessa divisão, o principal risco é perder a visão do todo. Exemplo de como temas aparentemente desconexos podem possuir uma profunda relação é a história a seguir.

O que teriam em comum rastafáris dançando reggae e a Rainha de Sabá, da longínqua Etiópia?

O Torá, a Bíblia e o Alcorão contam a história da Rainha de Sabá, ou Makeda, que supostamente teria vivido em local que hoje corresponde à região da Etiópia, ao redor do Século X aC. Segundo a tradição, Sabá teria viajado até o Reino Israel, para conhecer o Rei Salomão. Para alguns, tal encontro teria produzido uma descendência, dando origem a uma linhagem, a qual seria a origem dos monarcas etíopes.

Relevo renascentista da rainha de Sabá se encontrando com o rei Salomão (Portal do Batistério de Florença).

Na lista dos monarcas descentes dessa linhagem, está Tafari Makonnen, nascido em 1892 e tornado imperador em 1930, ocasião em que mudou seu nome para Hailê Selassiê (que significa “O Poder da Divina Trinidade”). Orador notável, Selassiê trouxe grande projeção internacional ao seu país. Seu discurso na Liga das Nações, em 1936, sobre a invasão da Itália na Etiópia, é considerado um marco que inspirou o movimento negro em várias partes do mundo:

Enquanto a filosofia que declara uma raça superior e outra inferior não for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada, enquanto não deixarem de existir cidadãos de primeira e segunda categoria de qualquer nação, enquanto a cor da pele de uma pessoa for mais importante que a cor dos seus olhos, enquanto não forem garantidos a todos por igual os direitos humanos básicos, sem olhar a raças, até esse dia, os sonhos de paz duradoura, cidadania mundial e governo de uma moral internacional irão continuar a ser uma ilusão fugaz, a ser perseguida mas nunca alcançada.

Selassiê criou uma legião de seguidores graças ao seu carisma e aos seus ideais, passando a ser adorado quase como um deus. Seus seguidores chamavam-no, em amárico, de Ras (príncipe) Tafari (seu nome).

Hailê Selassiê, em foto tirada na década de 30

A fama de Selassiê se espalhou pelo mundo todo, com especial influência nas populações de afrodescendentes. Com o tempo, os seguidores passaram a ser chamados pelo nome do próprio líder, os rastafáris. Na Jamaica, a ideologia em torno dele deu origem a uma religião, conhecida como Rastafarismo. O jamaicano Bob Marley, nos anos 60 e 70, foi profundamente influenciado por Selassiê, a letra da música War foi inspirada no seu discurso de 1936.

Em 1974, Selassiê foi deposto em um golpe de estado, morrendo no cárcere no ano seguinte, em condições até hoje não esclarecidas. Seu enterro se deu de forma simples, pois seus opositores não queriam grandes movimentações em torno do líder. Anos depois, em 2000, já com os golpistas fora do poder, o corpo de Selassiê foi localizado e exumado, para ser novamente enterrado com as devidas pompas, em um funeral da Igreja Ortodoxa Etíope. Bob Marley já havia morrido (faleceu em 1981), mas sua família esteve presente nessa cerimônia para prestar sua homenagem.

Há quem diga que Bob Marley é mais ouvido do que lido. Talvez haja um pouco de verdade, pois raros são os que conhecem os labirintos de sua curiosa ligação com a Etiópia. O improvável, porém, é sempre real. A história da Jamaica passa pela história da Etiópia, a qual passa pela história de Israel.

Ainda que Nietzsche afirme que não existe o fato, existe a versão, fica aqui o exemplo de como fragmentos, estudados separadamente, podem dar uma visão totalmente distorcida da verdade.

Uma resposta para “Ligações curiosas: da Etiópia aos rastafáris”

  1. Muito interessante e claro. Eu estava buscando uma matéria como esta para tomar por base em um trabalho que estou fazendo para divulgar na Igreja em que congrego sobre a ligação do Estado de Israel e a Etiópia e, consequentemente sobre o Rastafarismo.
    Grato.

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