A Idade do Meio

Franciso Petrarca nasceu em Arezzo, província italiana, em 1304, mas cresceu na região de Florença. Desde cedo alimentava o gosto pela literatura e pela poesia, passando a escrever para Laura, seu amor platônico, em poemas com 14 versos, separados em 2 blocos com 4 versos e outros dois blocos com 3 versos. Nascia, assim, o soneto, forma poética que tem em Petrarca um de seus criadores. Florença estava no Século XIV e começava a surgir uma ebulição. Pouco antes, Tomás Aquino fazia as pazes da Igreja com o pensamento aristotélico e Dante acabava de escrever sua Divina Comédia. Era o início de um movimento que viria a ser chamado de Renascimento.

Petrarca percebia essa movimentação. Ele era um grande admirador da cultura clássica da Grécia Antiga e severo crítico do obscurantismo em que o mundo havia se afundado, mesmo tendo esse passado brilhante. Petrarco achava que o mundo estava voltando a ter uma fase clássica, retomando as artes e a filosofia, como já houvera existido séculos antes. Passou, então, a dividir a história da humanidade em 3 fases, sendo duas clássicas nas pontas e uma obscura no meio. Essa fase do meio ele chamou de “Idade do Meio” e as demais, “Idade Antiga” e “Idade Moderna”. Mas como “meio” em latim é “medium”, quando a expressão foi aportuguesada, foi como “Idade Média”. A “Idade Contemporânea” foi agregada depois, com a Revolução Francesa.

A Idade Média, assim, é tida como um período obscuro, em que a humanidade regrediu em termos de civilidade. Mas essa, todavia, é uma visão europeia. Em outras partes do mundo, a cultura florescia. No mundo árabe, Al Karism (780-850) brilhava como matemático e foi o primeiro a solucionar as equações lineares e quadráticas. De seu nome derivam expressões como algarismo e algoritmo. Avicena (980-1037) criou e manteve uma das mais avançadas escolas de medicina da época. Averrois (1126-1198) traduziu a obra de Aristóteles para o árabe e foi o primeiro a analisá-la e comentá-la cientificamente. Foi graças a Averrois que Aristóteles foi “redescoberto” pelos europeus.

Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão, negava a existência de verdades absolutas. Mesmo em uma europa pós-iluminista, negar a verdade absoluta era negar a existência de Deus, o que causava grande polêmica. Mas para Nietzsche, era impossível a uma pessoa observar um fato de todos os ângulos, portanto sua narrativa sempre seria limitada. Dizia “não existe o fato, existe a versão”.

Dessa forma, a visão de Petrarco limitada à Europa o fez considerar o período “médio” como obscuro, pois não sabia do que estava acontecendo do outro lado do mundo. Hoje em dia, mesmo com toda facilidade de acesso à comunicação e informação, ainda continuamos limitados em nossa capacidade de observar os fatos.

Essa, para mim, é uma das mais relevantes lições que um professor deve passar aos seus alunos: a consciência dessa limitação e a humildade em aceitá-la. E, a partir dessa consicência, despertar nos alunos a importância de sempre apreciar o contraditório, pesquisando diferentes fontes e ouvindo pontos de vista antagônicos.

E, enquanto isso, ter paz e serenidade para apreciar arte, como os sonetos de Petrarca, dos quais reproduzo um a seguir:

Ó minha alcova, que já foste um porto
Às tempestades que cruzei diurnas,
Fonte agora de lágrimas noturnas,
Que no dia, por pejo, ocultas porto;

Ó leito, onde encontrei paz e conforto
De tanta mágoa, que dolentes urnas
Sobre ti verte o Amor com mãos ebúrneas,
Só para mim crueza e desconforto!

Porém do meu retiro e do repouso
Não fujo, mas de mim e do pensar,
Que tanta vez segui num devaneio;

E em meio ao vulgo adverso e inamistoso
(Quem diria?) refúgio vou buscar,
Tal é de ficar só o meu receio.

 

 

 

 

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