Poesia revolucionária

Raul Gama Duarte, nasceu em 1912, tinha 20 anos quando eclodiu a Revolução Constitucionalista de São Paulo. Ele era irmão de Helena Gama Duarte Garcia, minha avó, mãe de meu pai. Raul era filho de Chiquito (já falei dele aqui em outro post) e neto de Brasília, a qual era irmã de Pedro de Toledo (1860-1935), o líder da Revolução. Ou seja, Pedro de Toledo era meu tio-tata-tataravô.

Quando em 1930 houve a deposição do então presidente Washington Luís pelas forças lideradas por Getúlio Vargas, os paulistas ficaram do lado do Getúlio, sob o compromisso de que haveria uma nova constituição. Mas Getúlio, depois de assumir o poder, não mudou a constituição. A insatisfação paulista foi aumentando até que durante protestos de estudantes, no dia 23 de maio de 1932, morreram quatro jovens: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, origem da sigla MMDC. Alguns meses depois, eclodiu a Revolução, no dia 9 de julho de 1932, com Pedro de Toledo à frente do exército de São Paulo e de milhares de civis paulistas voluntários.

Os paulistas perderam a Revolução, mas Getúlio nunca foi efusivamente homenageado em São Paulo. Não existem praças, ruas ou avenidas chamadas “Getúlio Vargas” de destaque em São Paulo, como existe no Rio de Janeiro e em outros estados. Por outro lado, há várias homenagens à Revolução, tal como “Avenida 9 de Julho”, “Avenida 23 de Maio”, “Rua Pedro de Toledo” e “Rua MMDC”. Os restos mortais de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, por sua vez, estão sepultados no mausoléu do Obelisco do Ibirapuera.

Entretanto, quando Getúlio Vargas deixou a Presidência do Brasil, em 1945, ele resolveu se candidatar a senador. Na época, era possível votar para senador em qualquer estado e, paradoxalmente, Getúlio teve uma esmagadora votação em São Paulo.

Meu tio Raul, que tinha lutado na Revolução, ficou revoltado. Não conseguia aceitar o fato dos mesmos paulistas terem lutado contra o ditador 13 anos antes e, agora, terem nele votado expressivamente. “Qual foi a data do engano?!”, perguntava Raul.

Em sinal de protesto, tio Raul fez um poema e espalhou por avião os folhetos com o mesmo por toda cidade. Aliás, em tempos de Whatsapp, não dá uma certa melancolia ver que já houve o tempo em que as pessoas se comunicavam por poemas?

Bem, Raul Duarte faleceu em 2002, aos 90 anos e seu poema é uma peça fabulosa, que reproduzo aqui:

Em surdina

Paulista, meu conterrâneo
Contemplo um teu instantâneo
Já treze anos depois…
Comparo, com muito afinco
Teu voto em quarenta e cinco
Teu porte de trinta e dois!

Qual foi a data do engano?!
Quando acusaste o tirano
Com a boca de teu fuzil?
… ou quando lhe deste o voto
De um fervoroso devoto
Ao ditador do Brasil?

Pois bem. Mudaste? É um direito.
Corrige, então, teu conceito:
Poupa-te as horas amargas.
Vai a teu quarto. Há um lembrete;
Escreve em teu capacete:
– Votei no Getúlio Vargas

Festeja, meu voluntário!
Pega o fuzil lá no armário,
Dispara todas as cargas,
Grita com espalhafato:
– Triunfou meu candidato!
Votei no Getúlio Vargas!

Olha teu dedo, paulista,
Vês? Há um anel passadista,
Uma aliança maldita
Que te atrapalha e confunde,
Pega esse ferro. Refunde
Faze do anel a “marmita”

Abre uma outra gaveta!
Transforma tua baioneta
Em ferramenta “civil”;
Pega a arma, sai pra rua;
Faze do sabre a gazua
E abre o Banco do Brasil!

Evoca as marchas guerreiras
Que ardiam pelas trincheiras
Na boca da soldadesca!
A letra mais nada encerra
Entoa os hinos de guerra
Com letra carnavalesca…

O pavilhão dos paulistas,
“Bandeira das treze listas”,
É hoje um mau estribilho.
Rasga esse trapo e o poema,
Cobre a legenda e o emblema
Com o busto do teu caudilho!

Fecha no tapa e no peito
A academia de Direito
(taxaste-a de arruaceira)
Põe tudo na tua bitola;
Tira teu filho da escola!
Ensina a passar rasteira.

Vai à rua onde há uma placa;
Perfura o nome, esburaça,
Apaga o “Nove de Julho”.
Deixa a história definida,
Muda o nome da Avenida
Para:- “Avenida Getúlio”

Depois convoca os pracinhas,
Distribue as bandeirinhas,
Requisita o trem blindado!
Faze o serviço perfeito,
Levanta o braço direito
Dá um “Viva” ao Plínio Salgado!

Vai a um terreno baldio
Cheio de cruzes, sombrio,
De covas fundas e largas.
E fala, lembrando o vulto
De teu irmão foi sepulto!
– “Votei no Getúlio Vargas!”

Enfim… meu paulista estulto
Se achares que assim te insulto.
Com tanta verdade clara
Conto contigo, meu bravo,
Porque te tornas escravo
De quem de cospe na cara!!!

Raul Duarte

4 respostas para “Poesia revolucionária”

  1. Lindo Maurício!!Tenha orgulho mesmo!!Muito legal vc ser tatara- neto de Pedro de Toledo!!Eu nunca soube que ele marcou na frente da revolução. Adorei o seu relato e a poesia. E eu me orgulho de meu tio zRui de Negreiros Faria ter lutado tb, e sob a autorização de meu avô! Parabéns a vc é aos paulistas!! Vou compartilhar!

  2. Muito bom!! Tão atual para os dias de hoje. Pois, também esquecemos quais são nossas causas e valores na hora do nosso voto nas urnas “eletrônicas”.

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