A miss e o concurso improvável

Hoje com 34 anos, Inela Nogic ainda impressiona por sua beleza: loira, olhos claros e corpo esguio. E quando tinha 17 anos, em 1993, impressionava ainda mais a ponto de conquistar os jurados do concurso de beleza que ela venceu naquele ano.

Inela Nogic em 2008

Essa seria a história de muitas outras jovens bonitas, não fosse o improvável contexto daquele concurso. Ele estava sendo realizado em uma cidade sitiada, cercada por tropas inimigas, a ponto de ser invadida com milhares de possíveis mortos. A cidade era Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, uma pequena república localizada nos bálcãs . O objetivo desse concurso era o de chamar a atenção mundial para o iminente massacre e conseguir impedi-lo.

“Don’t let them kill us” dizia a faixa ostentada na passeata que se seguiu ao concurso, com Inela à frente. O episódio foi tema de uma bela música do U2 em 1995 (“Miss Sarajevo“), que, além do Bono, contou com a participação do tenor Luciano Pavaroti na gravação.  Dizia uma parte da música:


Is there a time for kohl and lipstick
A time for cutting hair
Is there a time for high street shopping
To find the right dress to wear


(Existe um tempo para sombra e batom
Um tempo para o cabelo cortar
Existe um tempo para fazer compras na rua
Para encontrar o vestido para usar)

 

Naquele ano, em 1993, Sarajevo estava cercada pelas tropas da Sérvia, país vizinho, que, no mapa, aparece à sua direita (leste). No comando da Sérvia, estava Slobodan Milosevic, no poder desde 1987. Milosevic, como muitos sérvios, nutria um sentimento de perda com a dissolução da antiga Iugoslávia, país do qual eram seu coração. A capital da Sérvia, Belgrado, era a capital da Iugoslávia.

Slobodan Milosevic

Acontece que a Iugoslávia foi um país criado no final da Segunda Guerra Mundial, comandada a punho de ferro por Josef Broz, um croata conhecido como Tito, que foi o líder da resistência durante a ocupação alemã e, após a libertação, dirigiu o país durante 35 anos, até sua morte. Quando Tito criou a Iugoslávia (palavra que significa “eslavos do sul”), o fez unindo antigas repúblicas existentes desde que a região se tornou independente dos turcos-otomanos em 1882. Mas era uma união artificial, mantida pela força. Uma piada da época dizia que a Iugoslávia de Tito era um decrescente numérico: “seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido”.

Josef Broz “Tito”

O fato é que muitas lideranças da Sérvia consideravam-na herdeira da Iugoslávia de Tito, mas desde sua morte, em 1980, tornou-se impossível conter os movimentos nacionalistas, buscando recuperar a independência das antigas repúblicas, numa região marcada por históricos conflitos .

Ainda que um sistema presidencialista rotativo tenha sido tentado após a morte de Tito, nenhum deles conseguiu impor uma liderança. Com a queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da União Soviética, os movimentos nacionalistas se acentuaram, até que em junho de 1991, a Eslovênia, o país mais a oeste da região, já fazendo divisa com a Itália, declarou-se independente, sendo seguida por seu vizinho à leste, a Croácia. Em setembro foi a vez da Macedônia.

Mas, quando em outubro, a Bósnia-Herzegovina, de maioria muçulmana, também declarou sua independência, a Sérvia de Milosevic reagiu, dando origem a um conflito que se estendeu por quase 10 anos, agravado pelo separatismo da província sérvia de Kosovo, causando milhares de mortes e deportações.

A região só foi pacificada com a intervenção internacional, com Milosevic deposto em 2000 e preso em 2001, após quase 14 anos no poder, acusado de atrocidades étnicas e crimes contra a humanidade. Morreu doente, em 2006, na unidade de detenção do Tribunal de Haia (Holanda), onde era julgado pelas acusações de crimes de guerra.

Hoje o local se encontra dividido nas seguintes regiões:

– Eslovênia (capital Liubliana)
– Croácia (capital Zagreb)
– Bósnia-Herzegovina (capital Sarajevo)
– Sérvia (capital Belgrado)
– Montenegro (capital Podgorica)
– Macedônia (capital Skopje)
– Kosovo (capital Pristina)

Há também a região da Voivodina, que postula sua independência.

15 respostas para “A miss e o concurso improvável”

  1. Maurício, pérolas de cultura como esta, que unem história e educação, são alimento para alma e só poderiam ser produzidas por uma mente brilhante como a sua. Adoro ler todas essas histórias e tenho o prazer de encaminhá-las aos gestores das escolas de nossos filhos e a nossos amigos

    beijo
    maria Inês

  2. Na escola me disseram que as misses desse concurso morreram devido o lançamento de uma bomba, porém procurei na internet e não achei nada a respeito. Além disso ainda vi diversas fotos mais atuais da ‘Miss Sarajevo’. Afinal, o que aconteceu de verdade? Elas foram mortas ou não?

    1. Pelo que levantei, a Inela Nogic não morreu. Todavia, essa foi uma guerra longa, com vários momentos tristes. Talvez outras tenham morrido em diferentes bombardeios. Mas a Inela não. Veja essa reportagem relativamente recente com ela: http://goo.gl/dRLCmw .

  3. Obrigado por este artigo.
    fico muito feliz por saber de toda essa historia, embora ao mesmo tempo triste pelas verdades descritas aqui.
    valeu.

  4. ótimo texto. Parabéns. situou em breve relato um história de dor e sofrimento. marcou especificamente a minha vida que casei naquele ano.93. e sempre fui fã de u2. quando vi a história assossiei ao chamado carniceiro dos Balcãs. cultura e história juntos. Parabéns mesmo.

  5. Visitei quatro desses países, (Croácia, Montenegro, Eslovénia e Bósnia). Na Bósnia é onde os “ódios” estão muito latentes e a as populações não querem esquecer as atrocidades cometidas, os diferentes grupos toleram-se, as marcas físicas e psicológicas são bem visíveis.
    Em Mostar, (cidade da Bósnia), respira-se a história recente, tal como em Dubrovnik, (Croácia).
    No país mais jovem, Montenegro, as marcas deixadas por Tito em Kotor estão bem patentes , acima do portão de entrada, (Porta do Mar)está inscrita uma frase que é bem esclarecedora, ” Não queremos o que é dos outros, jamais desistiremos do que é nosso.”
    Muito há ainda a ultrapassar por todo aquele povo, para que a verdadeira paz seja alcançada.

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