Quando uma pessoa faz a diferença

O Museu Jeu du Paume, em Paris, é uma pequena galeria localizada nos Jardins da Tulherias, anexa ao Louvre. Foi construído em 1861 para ser a sede da Corte de Tênis (“jeu du paume”, em francês), vindo posteriormente a abrigar uma importante coleção de artistas impressionistas, até que em 1986 essa coleção foi transferida para o Museu D’Orsay. Hoje, o Jeu de Paume exibe arte contemporânea, dos séculos XX e XXI, especialmente obras fotográficas.

Esse texto irá abordar a história da funcionária mais ilustre do Jeu de Paume. Rose Valland nasceu no interior da França, em 1898, num pequeno vilarejo chamado Saint-Étienne-de-Saint-Geoirs, hoje com cerca de 2 mil habitantes. Desde cedo se interessou por artes e foi estudar na Escola de Belas Artes de Lyon e, em seguida, em Paris. Em 1932 foi trabalhar no Museu Jeu de Paume.

Em 1940 a França foi invadida pela Alemanha Nazista e o Museu Jeu de Paume passou a ser sede da ERR (Einsatzstab Reichsleiter Rosenberg), organização criada para recolher materiais nos países ocupados para ser utilizado pelo Reich Alemão. Com isso, o museu se tornou uma espécie de entreposto, para onde eram enviadas obras de arte confiscadas em outros museus da França e de famílias judias.

Rose sempre foi metódica e muito discreta em seu trabalho: falava pouco e trabalhava muito. Por conta disso, ela foi a única funcionária francesa mantida pelos alemães no museu. Todos os dias, cabia a Rose catalogar as peças confiscadas e preparar detalhados inventários para os alemães. De lá, as obras eram enviadas para a Alemanha, por trem. O próprio Hermann Göring esteve no Jeu de Paume em maio de 1941 para selecionar as peças mais preciosas para sua coleção particular.

Os nazistas pouco falavam com Rose, mas entre si conversavam muito sobre o destino das obras. Um detalhe, porém, lhes passou despercebido: Rose falava alemão. Nunca revelou isso, mas todos os dias ouvia atentamente o destino de cada obra. À noite, pacientemente, registrava em um diário cada peça roubada. Ao longo de 4 anos, Rose conseguiu catalogar mais de 20 mil obras de artes levadas da França, com seus respectivos destinos.

Secretamente, Rose passava os registros à Resistência Francesa, que conseguia vez por outra impedir o embarque das peças. Um dos momentos mais espetaculares foi às vésperas da libertação de Paris pelos aliados, quando a Resistência conseguiu impedir o embarque de um trem que tinha sido repleto de obras de arte pelos nazistas que batiam em retirada (esse episódio inspirou o filme “O Trem“, de 1964, estrelado por Burt Lancaster, Paul Scofield, Suzanne Flon e Jeanne Moreau).

Com o fim da Guerra, graças aos registros de Rose, a maioria das obras pôde ser recuperada, através dos trabalhos da “Comissão de Recuperação de Obras de Arte”, da qual ela foi designada como presidente. Rose escreveu suas memórias em 1962 no livro “No Fronte da Arte”. Morreu em 1980, aos 82 anos, tendo recebido inúmeras condecorações e homenagens pelos governos de diversos países.

A história de Rose mostra como foi importante o conhecimento que tinha de arte e do idioma alemão. Mostra que o conhecimento, obtido após anos de estudo, é muito mais importante do que podemos imaginar. Mas, não foi apenas o conhecimento o responsável pelas façanhas de Rose Valland. Foi sua atitude, coragem e determinação, que a fez mobilizar seu conhecimento em torno de uma causa na qual acreditava, ainda que pudesse lhe custar a própria vida.

O exemplo de Rose pode nos inspirar em nosso trabalho junto aos alunos. Não basta lhes passar apenas conhecimentos. Conhecimento sem atitude é como um corpo sem alma. É preciso desenvolver nos alunos questões como responsabilidade, determinação, compromisso e seriedade. Não é nada fácil fazer isso, afinal fomos criados muitas vezes em sistemas educacionais com ênfase nos conteúdos, não nas atitudes. Pode ser difícil, assim, acreditar que o nosso trabalho do dia-a-dia seja capaz mudar esse sistema, ou ao menos colaborar nessa mudança.

Mas, voltamos ao exemplo de Rose Valland, que nos deixa sua maior lição: uma pessoa apenas, mesmo que trabalhando de forma solitária, pode sim fazer toda diferença.

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Em 2013, o filme “Caçadores de Obras Primas“, estrelado por George Clooney, Matt Damon e Cate Blanchet também aborda essa história. No contexto desse filme, vale a pena ler a crítica de Elio Gaspari ao tratamento distinto dado ao saque dos nazistas na Segunda Guerra e ao saque que ocorreu no Museu de Badgá logo após a invasão americana, em 2003.

 

 

4 respostas para “Quando uma pessoa faz a diferença”

  1. Maurício Garcia estou encantada com sua forma de relatar a história .É contemporânea , interessante , inteligente e nos induz a reflexão !
    Meus parabéns pelo blog e iniciativa !
    Descobri esse blog por acaso mas depois que li seus textos acho que foi destino !
    Um abraço

  2. Caro Mgar,
    Concordo plenamente com a última frase! Na verdade, os grandes feitos da história, bons ou ruins, foram todos idealizados por um único homem (ou mulher). Cada um de nós, dentro de nossos mundinhos, podemos – e devemos – fazer a diferença!
    Obrigada por compartilhar essa história tão interessante!
    abraços Alessandra

  3. Compromisso, responsabilidade, determinação e seriedade no que fazemos, não importa a profissão, faz a diferença! Parabéns prof. Maurício!!

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